Inovação baseada em eventos
Costumo ver em blogs, no Twitter e noutros meios muitas pessoas a discutir sobre a necessidade de uma empresa aumentar ou diminuir os gastos em inovação em tempos de crise económica. Isto parece razoável a princípio, mas se se pensar bem na questão, é como se se perguntasse se a água ou o ar são mais importantes para os humanos à segunda-feira ou à sexta-feira.

Vamos definir uma série de estipulações. Primeiro, a inovação é importante para novos produtos e serviços. Segundo, os novos produtos e serviços atraem novos clientes e seguram os já existentes, enquanto que a ausência de novos produtos e serviços costuma levar a uma perda de clientes e receitas. Terceiro, aquilo que motiva a maior parte das empresas é o aumento do preço das acções, que costuma ser ditado pelo aumento dos lucros.

Pode-se optar por aceitar esta sequência de estipulações simples ou não - a escolha é de cada um. Suponho que qualquer pessoa pode dizer que em tempos de crise os lucros vão cair já que os consumidores vão comprar menos. Mas nessa altura a discussão passa para o facto de que, quando os clientes compram, querem gastar o dinheiro no melhor bem possível. Quando, em tempos de crise, os consumidores se vêem confrontados com a possibilidade de comprar algo novo e inovador ou algo tradicional e já conhecido, a maior parte prefere ir para o que "chama mais a atenção". Mas também se pode dizer que as pessoas pura e simplesmente vão deixar de gastar dinheiro, por isso não há necessidade de novos produtos e serviços. Tenho ido aos centros comerciais e sem dúvida que há menos consumidores - mas os últimos números oficiais apontam para um decréscimo na ordem dos 5% em relação aos últimos anos, logo continua-se a gastar. Outra coisa ainda que se pode dizer é que se vai ficar "sentado à espera" e começar a inovar outra vez quando a economia retomar. Como já discutimos antes, pelo tempo que as empresas demoram a criar um programa de inovação, acaba-se por se chegar tarde ou, no pior dos casos, ultrapassado.

Se a inovação é importante, será que deve ser vista como a água da torneira, que se abre e fecha quando se quer, seguindo as oscilações económicas ou quando outros eventos nos obrigam a reavaliar o nosso negócio? Será que a empresa deixa de comprar matéria-prima ou deixa de pagar aos empregados quando a economia está em queda? São questões essenciais, não são? Bem, se se deixar de inovar em altura de recessão, isso significa que a inovação é o quê? Pouco importante?

Se a inovação está prevista no ciclo económico, então quando é apropriado inovar? Claramente, há muitas pessoas que acreditam que não se deve inovar quando os mercados e a economia estão em baixo e também se pode dizer que não é preciso inovar quando os mercados estão em alta, já que há muito onde se gastar o dinheiro. É óbvio que se vai encontrar problemas quando se tenta investir na inovação com os mercados em quebra, já que as pessoas preferem "bater no fundo" a investir. Isso deixa-nos a ver quando é que o mercado está em ascensão para inovar quando o mercado está bem. Por outras palavras, muitas pessoas pensam que a inovação funciona como os investidores por impulsos.

Isso acarreta alguns problemas. Primeiro, é preciso perceber o mercado. Será que a equipa é suficientemente inteligente para identificar o fundo e o topo do mercado? Segundo, surgem questões culturais e de inércia. Se se parar e depois se tentar recomeçar, a inércia da empresa vai atrasar tudo. Terceiro, a velocidade. Mesmo que se comece, será que vai ser suficientemente rápido? Quarto, problemas de tempo. A maior parte das empresas demora vários meses a gerar e a aperfeiçoar uma ideia, podendo demorar entre quatro a dezoito meses a desenvolver, comercializar e lançar um produto. Isso significa que o funil de inovação está vazio, podendo levar a que se esteja numa outra recessão quando as ideias chegam ao público. Por fim, o pára - arranca pode ser entendido como falta de compromisso pela equipa, deixando-os hesitantes em comprometerem-se com um programa de inovação quando voltar a ser preciso.

Enquanto a inovação não se tornar uma capacidade fulcral, que está sempre activa independentemente dos tempos que correm, não é de todo uma capacidade.


Sobre o autor:

Jeffrey Phillips é consultor de gestão e inovação. É ainda autor de vários livros e do blogue Innovate on Purpose, que recomendamos.


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